sexta-feira, 8 de junho de 2012

Texto de Al Duarte sobre o Estudo do Gnosticismo



Tentaremos visualizar o pragmático das ideias gnósticas, como elas, ainda que fabulares, ainda que saturadas de esoterismo, tinham um único fim de resistir, se contrapor, criar uma via de vida outra que não fosse o mundo programado pelo Cristianismo ortodoxo, e pelo Império Romano. O objetivo é exatamente suscitar interesse pra outras conversas. Ideias como de que Javé não é idêntico ao Pai de Jesus, e que ele é o criador do mundo, logo um deus-demonio, um deus mau, ludibriador, que mantém os homens na ignorância. Ora, isso tinha uma pratica de liberdade fantástica! Assim, se escapava do Judaísmo, das Escrituras do Judaísmo, se tinha liberdade pra reler os mitos judaicos, e as Escrituras como bem quisesse, recriando os mitos como fosse util. Assim, se dizia que tudo no tempo atual era mal, decadente, e prisão de ignorância. Queriam se libertar do império da historia, e dos poderes que organizavam o mundo atual. Roma e Cristianismo. Ora, assim como Javé-demiurgo que fundamentava a organização atual, que a criou como prisão de ignorância, assim, nos dizemos também que o Deus que circula por aí é um deus falso, que não é o Pai de Jesus. Importa não tomar o discurso gnóstico nem com rigidez literal, nem como metáforas, mas como que chamaremos de linguagem do virtual, linguagem de intensidades, nunca como simbólico ou metafórico, afim de perceber o pratico, a política das praticas discursivas deles. Assim como o demiurgo é responsável pela criação do mundo, o mundo é o criador do demiurgo. Não estamos longe de Feurbach.

A ideia de que o corpo de Jesus não era comum, não podia ser como o nosso. Isso tem todo um sentido muito interessante. A gente olha isso com preocupações quase biológicas. Mas, ora, se para eles, o mundo era mal, a matéria era mal, como Jesus podia participar disso? Os gnósticos queriam instaurar um dualismo rígido, materia-espirito. Matéria é o mal, espírito é o bem. Ora, mas se lermos as intensidades, sem metaforizar e sem literalizar, veremos que tem algo politico-etico-estético aí, e o maior dualismo, é o Virtual contra o Atual. Que a matéria má, o mundo mau, é o do atual, o que presente, o histórico, organizado pelos "Arcontes", governantes que conservam as almas na ignorância. É contra a matéria endurecida e rígida que eles se erguem, a que perdeu a maleabilidade do espírito. Quando falam de liberar a fagulha divina em nós, e retornar o seio da Luz, da Verdade, do Deus verdadeiro, é um retorno ao virtual, ao espírito, ao transcendente, ao devir ativo. Para perceber a política dos gnósticos, é preciso ver o dualismo deles com Inatual, Virtual, espiritual, transcendental, contra o Atual, matéria endurecida, tempo cronos, historia. 

Outra coisa interessante da política dos gnósticos, a problematização e desconstrução da inteligência e da razão socrática. A gnose não é a recolocação da intuição, da inspiração, do conhecimento do coração e do espírito, contra a logica-proto-racional-socratica, utilizada pelos teólogos, os organizadores do mundo. Contra essas racionalidades eles lançam o conhecimento espiritual, que só se da solitariamente, que exige ascese, trabalho, e pratica de liberdade, a fim de libertar-se das ilusões da inteligência que eles chamam de ignorância. 
Al Duarte

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